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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Diálogo

A vida olhou para mim:
- Não me deixes.
Abri os olhos:
- Não te deixareis, nunca!
Ela sorriu:
- Ainda bem.
Devolvi o sorriso.
- Não vás embora.
Nesse momento, a vida me abraçou:
- Estou aqui.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O que temos aqui?

O que temos aqui,
se não me olhas nos olhos?
Como podes me ver,
sem sentir coisa alguma?

O que temos aqui
entre o frio e o silêncio?
Como podes fingir
que algo temos aqui?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Alguém disse melhor... (2)

Não sei o motivo, mas esse é o meu poema preferido do Manuel Bandeira...

Desencanto


Eu faço versos como quem chora
De desalento.. de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo de nenhum pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.


E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca


Eu faço versos como quem morre.

                                    Manuel Bandeira

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Alguém disse melhor...

Sabe quando você lê algo e sente que aquilo sintetiza uma parte de ti?
Quando você queria dizer, mas alguém disse melhor...

Vai-se o hoje: uma cápsula
de fria luz que volta ao teu recinto
à sua mãe sombria, renascendo.
Deixou-o agora envolto em sua linhagem.
Dia, é verdade que participei na luz?
Tempo, sou parte de tua catarata?
Areias minhas, solidões!

Se é verdade que partimos,
fomos nos consumindo
em pleno sal marinho
e a golpes de relâmpago.
Minha razão têm vivido na intempérie,
entreguei ao mar meu coração calcário.

                                                  Pablo Neruda

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Deixa...

Deixa que o vento toque tua face,
Envolva teu corpo, te leve pra longe.
Deixa que a brisa susurre de leve,
Que a vida te pegue, te mostre um instante...

Deixa que o olhar te contente,
Que esteja presente, que saiba falar
Deixa que a voz não te escape,
Que seja liberta, ecoe no ar...

Deixa o sentir tomar conta de ti...
Por um momento deixa te deixar...
Deixa que venha o sentir sorrir...
Aprenda a não mais te deixar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Para onde foram as palavras?

Guardei uns poucos versos aqui dentro
Dentro de mim, guardei umas poucas linhas
Talvez ainda estejam, mas parece que se dissolveram
Ou quem sabe voaram para longe das amarras?

Não sei ao certo, talvez ainda estejam aqui 
Também não sei se é de fora pra dentro
Ou de dentro para fora...

Apenas sei que estão ou estiveram
E que às vezes clamam para sair
Muitas vezes se entrelaçam,
Se misturam, se confundem...

Não costumo versejar
E quando o faço, brotam frutos inseguros... [Isso talvez seja uma dor, defeito, ou o que queiram chamar, de acordo com a ocasião]           
Mas tento tornar as palavras um espelho
De coisas nítidas e não nítidas
A inquietar-me o espírito.   

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Versos Íntimos, Augusto dos Anjos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

                              Augusto dos Anjos

Psicologia de um vencido, Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
                                
                                   Augusto dos Anjos

Soneto impecável, espelha em seus versos uma carga emocional enorme, trazendo a morte como fim inevitável, explorando aspectos antipoéticos e utilizando-se do naturalismo para dar forma a uma síntese da vida/morte, que apesar de ser centrada no eu-lírico, apresenta-se de modo universal.
Não sou uma grande apreciadora de poesia. Deveria.
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